EDMILSON QUIRINO DE ALCÂNTARA: A LEMBRANÇA ALEGRE DE QUEM TEM APREÇO PELO TRABALHO QUE REALIZA.

Conversar com Edmilson é sempre muito agradável. Apesar da memória já comprometida ele adora falar sobre sua experiência como dono de bar. A alegria com que fala do assunto é contagiante. Às vezes, esquece alguma coisa, mas Hilda, sua esposa, sempre diligente ajuda a conduzir nossa conversa preenchendo as lacunas. Foi uma manhã muito agradável no meio das plantas bem cuidadas do jardim interno da casa. Agradeço muito a gentileza do casal. Foi muito interessante a nossa prosa porque fala do que é comum  aos que viveram  os anos setenta e oitenta na cidade de Ipaumirim. Quem nesta época passou por Ipaumirim que não teria algo a contar sobre a toca? 



Edmilson e Hilda

São poucos os que o conhecem pelo nome de batismo – Edmilson Quirino de Alcântara – mas se você perguntar por Jia todo mundo sabe quem é. Sujeito tranquilo, educado, atencioso, sempre alegre, trato agradável e boa prosa, qualidades fundamentais para obter sucesso no ramo de trabalho que escolheu.

Nascido na cidade de Antenor Navarro (PB), no ano de  1942, Edmilson, filho de Batista Quirino de Alcântara e Maria de Lourdes Alcântara, chega na cidade de Ipaumirim aos nove anos de idade, em 1951,  para trabalhar com seu tio, Pedro Lacerda de Alcântara que tinha uma pequena indústria de descaroçar arroz.  Posteriormente, os pais vieram da cidade de Antenor Navarro (PB) com seus três irmãos para montar uma padaria em Ipaumirim. Seu pai era um homem muito trabalhador, a mãe tinha um temperamento mais reservado e a família composta de quatro filhos era muito unida. Na mesa da casa não faltavam feijão com toucinho,, cuscuz, rapadura e outras iguarias típicas da gastronomia  interiorana.   Edmilson  trabalhou muitos anos com seu pai vendendo pão num balaio pelas ruas da cidade. Trabalhava e estudava. Foi alfabetizado, em Ipaumirim, pela professora Ivonete Albuquerque. Anos depois conseguiu trabalhar por conta própria. 

Por volta de 1958 começa a namorar com Hilda Alves, filha mais velha do casal  Seu Afonso e Dona Maria Alves, conhecida como Maria de Afonso. Seu Afonso, como era conhecido, chamava-se Antonio Vieira da Silva, veio do Rio Grande do Norte embora nascido na Paraíba para trabalhar na agricultura com Oswaldo Ademar Barbosa. Depois trabalhou no motor da luz. Dona Maria,natural de São Miguel (RN),  tinha em Ipaumirim um café muito bem frequentado. O casal teve os seguintes filhos: Hilda, Ilma, Dilma, Evandro, Evanildo e Edvan (Didiu).

A paquera com Edmilson começa quando Hilda vai passear com os irmãos na praça da igreja. Casaram-se no ano de 1966. O casal teve quatro filhos: Fabiano (1969),  Flávio (1965), Kaline (1974)  e Edmilson Júnior (1976) 

Edmilson montou seu primeiro bar num prédio de propriedade do ex-prefeito da cidade, Ademar Barbosa, onde antes funcionava o bar de Azarias, sobrinho de Ademar, localizado na antiga Praça do Posto, atual Praça Oswaldo Ademar Barbosa. O bar era vizinho da Cooperativa Agrícola de Ipaumirim.

Posteriormente transferiu o empreendimento – Bar do Jia – para o piso  térreo de um sobrado localizado na esquina entre a antiga Rua do Sol, atual Rua Alexandre Gonçalves,  e o largo da feira, atual Praça São Sebastião.. Depois, mudou-se para outro ponto na mesma rua instalando-se num prédio perto do chafariz conhecido como o chafariz de Luídio Barbosa, seu construtor. A partir de então o Bar do Jia passa a se chamar Buraco da Jia por sugestão do Professor José Holanda, assíduo frequentador inspirado numa jia que habitava um cacimbão no fundo do quintal do estabelecimento.

Mobiliário modesto, mesas e bancos de madeira e um balcão onde atendia a clientela. Além da bebida, toucinho torrado e tripa eram seus tira-gostos mais apreciados. O bar era frequentado pela população local e também pelos ciganos quando  arranchavam-se nas imediações da pequena cidade. Edmilson lembra que Dona Alzenira, esposa do professor Holanda, detestava os ciganos. Tinha ciúmes do marido com as ciganas e vez por outra aprontava confusões no bar durante estas temporadas. Até então as mulheres não frequentavam bares.

Após algum tempo trabalhando no Buraco da Jia, Edmilson arrendou o bar do Clube Recreativo de Ipaumirim (CRI), famoso na região pela organização e sucesso das suas festas que atraía não apenas a sociedade local, mas visitantes de outras cidades inclusive da capital. Junto ao clube havia um terreno baldio pertencente a Ademar Barbosa que, na época, andava com problemas de saúde e Dona Lidinha, sua esposa, estava vendendo alguns imóveis da família. Dona Maria, sua sogra, entrou em contato com Dona Lidinha para negociar a aquisição do terreno. Acertado o negócio Edmilson faz um empréstimo em uma agência bancária da Lavras da Mangabeira para quitar o débito. A seguir, começa a construção da palhoça denominada Toca do Jia inaugurada por volta do ano de 1977. No começo, a cobertura era de palha e depois foi instalado um telhado. Durante mais algum tempo continuou arredando o bar do clube e trabalhando na toca. Com a decadência do clube concentrou suas atividades na Toca do Jia que durante muitos anos foi a principal opção de lazer na cidade de Ipaumirim. Além de realizar eventos produzidos pela própria administração, Edmilson também alugava o espaço para realização de shows e festas. Geralmente, toda semana tinha eventos no local. Grandes festas ali realizadas foram produzidas por Nino Conrado, José Ramos e Frank Som. O contratante ficava com a renda da bilheteria e o serviço de bar com o seu proprietário.

Muitas atrações regionais fizeram shows no local. Entre outras, Bartô Galeno, João Dino, Banda Aquarela, Baby Som de Juazeiro do Norte. O repertório era eclético. Gretchen, Fagner, Ronnie Von, Roberto Carlos, Jerry Adriani, Beatles, Sidney Magal entre  outros cantores de sucesso.. Do romântico ao forró todos os gostos musicais frequentavam o ambiente. No meio desse caldeirão de ritmos, a música Chililique, do Trio Nordestino,  era das mais apreciadas pelo público.

A toca propiciou romances, desenlaces amorosos, animados aniversários, festas populares durante os festejos religiosos da padroeira e da festa de São Sebastião, carnavais, entre outros.   Seus eventos dinamizaram a vida social da cidade até o ano de 2009 quando o terreno foi vendido e a toca demolida para a construção de um  imóvel.

Uma das bandas que mais frequentou a Toca foi Nino Som 5, liderada por Francisco Adalberto Batista Conrado,  conhecido como Nino de Maurde, que tocou na inauguração do local. Nino lembra as mesinhas simples de madeira pintadas de verde. Vale a pena alongar-se um pouco sobre esta banda pela importância não apenas para a Toca do Jia mas para toda a cidade e outras localidades.. O próprio Edmilson reforça a sua importância e sugere um destaque para o grupo.

NINO SOM 5

O grupo musical começou com jovens estudantes do Colégio XI de Agosto. O professor José Holanda formalizou um concurso interno entre alunos para dar nome ao grupo. Venceu a estudante Maria Pinheiro  que sugeriu o nome Nino Som 5.

O grupo programou uma festa e como não tinha bateria pretendia utilizar os tambores da escola. A festa não aconteceu porque o Prof. José Holanda não permitiu  o desvio do uso do material escolar em atividades recreativas fora das programações escolares. Os integrantes da banda resolveram o problema resgatando uma bateria velha na sede da banda de música municipal. A sua formação original é composta por Titico de Aurora no violão, Nino no  trombone, Pelé na bateria e o cantor era Paulo de Alceu. Com o tempo, esta formação original foi alterada. O grupo começou tocando nas festas da igreja que aconteciam na Praça Coronel Luiz Leite da Nóbrega.

Com o patrocínio de José Alves de Oliveira adquiriu guitarra, contrabaixo, microfone e pedestal. A banda foi crescendo e conseguiu comprar um teclado, pedais e mesa de som. Mais equipada começou a tocar em outras cidades da região tanto do Ceará quanto da Paraíba. A sua fama expandiu-se e eles tocaram também em cidades do interior do Rio Grande do Norte, Piauí e Maranhão. Em Ipaumirim, os rapazes fizeram algumas festas no Clube Recreativo (CRI), mas o seu principal reduto sempre foi a Toca do Jia onde tocava nas festas natalinas, réveillon, carnaval, entre outras festividades.

A banda fazia festas e/ou shows acompanhando cantores que passavam pela região assim como  também alugava seus equipamentos. Com o tempo desfez-se e Nino dedicou-se à atividade docente.

Agradeço a Nino as informações que me foram gentilmente prestadas.

Maria Luiza Nóbrega de Morais

Recife, 20.07.2023

MEU NASCER SE FEZ HISTÓRIA

 
 “Tem muita gente tão bonita nessa terra
 Nas minhas contas são sete bilhões mais eu 
Tem Ronaldinhos e rainhas da Inglaterra 
Mas nada disso muda que só eu sou eu 
Só eu sou eu, só eu sou eu 
Além de mim não tem ninguém que seja eu.” 
(Só eu sou eu, música de Marcelo Jeneci)

Todo mundo tem uma história para contar, mas contar a própria história é uma  empreitada desafiadora.  Organizar a cronologia do tempo é uma atividade mecânica minuciosa que demanda atenção e cuidado na elaboração de uma cartografia do destino. Diante do múltiplo universo que permeia o cotidiano, selecionar o que tem relevância é uma etapa mais elaborada e trabalhosa porque detalhes, muitas vezes imperceptíveis na hora em que acontecem, parecem indispensáveis quando visitamos o próprio passado.  Enquanto resgatamos fatos e situações ainda estamos assentados confortavelmente na planície. Tudo pode ser ordenado, classificado e explicado.  Mergulhamos na memória propriamente dita quando começamos a dar sentido aos fatos. Entramos no território do atemporal quando a emoção interessa mais do que o tempo cronológico, o olhar mais do que o objeto iluminado, o sentimento mais do que a lógica.  A causa e o efeito, o porquê ou os porquês já não são marcadores confiáveis. É nesta territorialidade elástica, desafiadora, surpreendente e imprevisível que a vida atravessa o tempo. É isto que impõe originalidade a cada indivíduo no seu estar no mundo. O livro de Raimunda Vieira Rolim  resgata uma travessia de coragem, resiliência e capacidade de se reinventar a cada desafio.

Vale a pena mergulhar com atenção nesta obra que além da própria vida da autora resgata a memória de um tempo que merece ser revisitado.  

MLUIZA

Recife, 06/02/2023


O GRUPO

 

MLUIZA

Tinha fama de irresistível.  Umas opinavam que era carente, outras diziam galinha e ainda outras taxavam de avoada. Eu admirava a sua vulnerabilidade inconsequente.  Ela não tinha do que reclamar. A fila andava. Um olhar, um bilhete, um recado, uma dança. Tá valendo. O telefone inacessível a uma república de estudantes era a única coisa que desacelerava o ritmo da sua vida amorosa.

Naquela época não se falava em assédio. Era gentileza, cantada, galanteio ou enxerimento. Não importa. Pra ela, era tudo a mesma coisa. Vez por outra deprimia por excesso, nunca por escassez.

- Esse fim de semana vou ficar em casa. Quero paz, dizia nos seus momentos depressivos. 

O nosso bairro era um canteiro de estudantes vindos do interior e de outros estados. Formávamos uma alegre comunidade onde todos se conheciam. Era um bairro sem segredos.

Na sexta feira começava a movimentação. Ninguém tinha carro e o dinheiro era curto. A melhor opção eram as festinhas nas repúblicas estudantis.  

- Vocês vão pra onde mesmo? Bateu a dúvida na irresistível.

- Sei não. Vamos ver onde está melhor. Se quiser ir se arruma logo porque a gente já está de saída.

- Tá bom. Vou com vocês.

Dependendo da animação da festa trocávamos de lugar. Sem telefone celular não tinha como localizar depois. Ou ia junto ou não ia.

- Eu só sei que eu vou arrasar. Vou até usar um perfume melhor. Hoje, eu quebro a corrente, apostava uma otimista confiante.

As que tinham namorado preferiam não sair. Era mais econômico namorar em casa.  Havia regras implícitas e invioláveis na nossa república. Rapazes não podiam entrar nos quartos nem usar nosso banheiro. No apuro, podiam usar o banheiro da empregada. O nosso, nunca.  O namorado que chegasse primeiro ocupava o terraço. O sofá era de quem resolveu ficar em casa vendo a velha TV em branco e preto. Quem quisesse namorar no sofá tinha que compartilhar o canal escolhido pelas donas da casa. A mesa era prioridade para quem queria estudar seguido de quem decidiu jogar paciência ou buraco quando tinha parceria. Sobrava a escadaria pra quem chegava depois. Era um prédio pequeno de três pavimentos e dois lances de escada.

Quem não saía aguardava ansiosamente as novidades na volta das noitadas.  

- E aí, quem tava lá? Deu paquera? Algum pedido de namoro?

- Eu mesma só dancei. Só tinha liso naquela festa, diz a irresistível.

- Mais uma vez, zerei. Não pintou ninguém. Ando azarada. Sobrei de novo. Não entendo, lastimava-se a otimista.

- Sabe por quê? Porque pegasse a fama de gabola. Todo mundo fica sabendo  o que você comenta sobre as intimidades dos seus paqueras. Quem me disse foi aquele menino de Assaré que faz engenharia e mora ali junto da Praça Chora Menino.   Ele está com ódio de você.

- O quê? Logo aquele magrelo desmilinguido comentou isso de mim, foi? O cara não sabe nem beijar e pensa que vai saber construir prédio. Era só o que faltava.

- Foi, sim. Você comentou com aquele menino de Barbalha que faz medicina na federal e ele disse ao próprio na frente de todo mundo na festa da turma de Juazeiro.

- Tá bom. Na próxima sexta vai ter uma tertúlia na república do pessoal da rural (UFRPE) que mora ali nos condenados da Manoel Borba. Eu nem estava pensando em ir, mas vou. Vai ser o dia dele. Me aguardem, avisou injuriada.    

Muitas vezes a resenha era melhor do que a festa e a conversa varava a madrugada.

A vida nos levou por diferentes caminhos e perdi o contato com muita gente, mas a alegria que ficou em mim daquela saudável convivência é muito maior do que as distâncias que me levaram a perdê-los de vista.

MLUIZA

Recife, 17.11.2022

EDMILSON QUIRINO DE ALCÂNTARA: A LEMBRANÇA ALEGRE DE QUEM TEM APREÇO PELO TRABALHO QUE REALIZA.

Conversar com Edmilson é sempre muito agradável. Apesar da memória já comprometida ele adora falar sobre sua experiência como dono de bar....