O gerente do armazém chamava-se Domingos, um português bonitão com seu bigode muito bem cuidado. Era um senhor muito educado e atencioso inclusive comigo que era apenas uma garota franzina trajada com a farda do Colégio Nossa Senhora de Lourdes que usufruía da companhia do meu pai sempre e quando as freiras permitiam a saída durante a semana. Eu aproveitava essas ocasiões para visitar uma sortida banca de revistas que ficava na calçada de uma loja na Praça João Pessoa. Só olhava, mas não comprava porque era proibido entrar com revistas no colégio e lá em casa era expressamente proibido ler gibis.
A região toda se abastecia em Cajazeiras e se encontrava por ali gente de todos os lugares da redondeza. Como as cidades vizinhas não tinham banco, as pessoas que negociavam e também agricultores e pecuaristas encontravam-se necessariamente no Banco do Brasil de forma que todos os caminhos levavam a Cajazeiras e todo mundo se via por lá.
Quando a homossexualidade começou a aflorar de forma mais aberta em Cajazeiras, as conversas rolavam por esse tema de um jeito bem humorado porém não menos preconceituoso. Os tempos eram assim e é tolice querer exigir de um tempo aquilo que ele não foi. Você pode mudar o presente e o futuro, mas o passado é imutável. Passou. Foi. Projetar no passado o tempo presente é desinteligência. Numa dessas conversas entre machos, perguntaram a papai em tom de brincadeira capciosa.
- Vicente, em Ipaumirim tem veado?
Papai não deixou barato. Respondeu de forma bem humorada a provocação encerrando a conversa.
- Só de quatro pés. Os de dois pés estão todos em Cajazeiras.
MLUIZA
Recife 13.01.2021
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