GRACIAS A LA VIDA QUE ME HA DADO TANTO

MLUIZA

“Fue impreciso nacer y fue tardío
nacer de veras, lento,
y palpar, conocer, odiar, amar,
todo esto tiene flor y tiene espinas.”

(Pablo Neruda, Primer viaje)

Hoje, fiz 71 anos. Caminho na direção dos oitenta. Vida que segue. Espero chegar lá. Nasci no ano de 1951, na Rua do Sol, uma casa simples cuja frente tinha duas janelas e uma porta, no pequeno Distrito de Alagoinha pertencente ao minúsculo município de Baixio. Sempre digo que nascer na rua do sol despertou em mim a admiração e o gosto pela luz.

A despeito dos revezes pelos quais todos passamos de uma forma ou de outra, mais tenho a agradecer do que a pedir. Tive avós maravilhosos, um avô excepcionalmente presente na minha vida e na minha memória afetiva.  Tive um pai amigo e compreensivo, um irmão que atravessou a vida com dificuldades, uma mãe forte, corajosa que aos 95 anos ainda ama a vida com afinco. Tenho uma filha que todos os dias me ensina novas lições de coragem e determinação.  

Vivi uma infância simples, protegida, despojada. Estudei o curso primário em escola pública no único grupo escolar que havia na cidade. Dai, em 1962, saí para o mundo e fui tecendo os meus caminhos. No roteiro, construí grandes amizades a quem quero referenciar e reverenciá-las neste momento. A minha vida é a tradução das amizades que cultivei ao longo dos anos. Tão diferentes entre si e tão harmônicas no conjunto, minhas amizades são a sinfonia que embala a minha vida. Eu seria injusta se esquecesse algumas entre todas,  razão pela qual não devo nomeá-las individualmente.

Minha filha diz que se eu fizesse uma festa e, de repente, todos os meus amigos estivessem presentes seria uma odisseia ou uma guerra de tão diferentes que eles são entre si.

Alguns já se foram sem me pedir licença, outros estão longe e já não sei por onde andam. Aliás, sei sim. Estejam onde estiverem estarão juntos onde eu estiver. Meus amigos sempre foram únicos e de cada um eu guardo com carinho alguma coisa em especial.

Quero reverenciar, neste momento, minhas amigas que já partiram, mas sobrevivem ao tempo dentro de mim.  Só não me peçam para perdoar essas partidas sem minha autorização.

Quem já teve uma amiga que se sentou ao piano para tocar uma música especialmente para você num momento em que você se despedaçava por um amor absolutamente banal e passageiro, mas naquele momento definitivo. Uma trilha sonora para um amor moribundo não é coisa para ser esquecida como se nada fosse.

Ter como amiga uma galega vaidosa, namoradeira e ardilosa ensina coisas que nenhuma enciclopédia dá conta. Éramos cumplices das suas investidas amorosas inclusive aquelas que aconteciam concomitantemente. Amiga querida, você era irresistível pela sua leveza e graça. Saudades muitas.  

Ter uma amiga que atravessa com você momentos dilacerantes e não fala nada, apenas fica perto e olha pra você é essencial na vida de qualquer um. Amiga, aquele olhar, naquela hora, me ajudou a transpor um abismo. Não tem como esquecer.

Sabe aquela amiga que vai ao supermercado, descobre um óleo de cozinha, compra um para si e outro para dar de presente a minha mãe? Que jeito de amar seria mais insólito? Era o jeito dela e de ninguém mais.

É imprescindível conviver com alguém que conseguiu cultivar o saudável hábito de não julgar. Uma camaleoa, nunca era a mesma no momento seguinte. Trazia na alma o dom de surpreender. Dizia pra minha filha adolescente que casar é bom, muitas vezes. Personalidade firme, criativa, corajosa e de gestos suaves. Uma pessoa que sabia escutar e que só tinha coisas boas pra dizer mesmo quando a própria vida já estava em plena erosão. Amiga querida, eu lembro de você todos os dias com uma infinita saudade.

Alguém viveu o que é ter uma amiga temperamental que vai de zero a mil em um segundo? Uma hora te esculhamba e no momento seguinte te adora. É preciso nervos para conviver com um temperamento tão intempestivo. Era o seu jeito especial de ser.  Sua coragem de recomeçar, sua generosidade e desprendimento era uma lição de resistência. Não esqueço que te devo muito e da importância que você teve na minha vida.

Mulheres corajosas que tiveram uma passagem meteórica pela terra porque se foram cedo demais quando ainda tinham muito a viver.

Mas não só de lembranças vive o meu coração. A vida foi pródiga em colocar ao meu lado amigas e amigos tão queridos e que ainda estão aqui. Gente capaz de conviver com minhas glórias e misérias, ouvir minhas lamúrias enquanto choro minhas pitangas. Amizades que conseguem transformar minhas agonias em algo frugal só para me mostrar que o mundo não acaba nem termina em mim. Amizades que seguram minha mão, compram minhas brigas, me dizem o que eu não gostaria, mas precisaria ouvir. Amizades que corrigem meus erros sem recriminar, toleram meus achaques, estimulam, ajudam, cobram, perdoam. Muitas vezes, não entendem minhas razões, mas ficam ali por perto. Amizades que me tiraram para dançar as suas vidas. Amizades que ao me ensinarem a desaprender o mundo deram-me a maior lição sobre a importância de renascer todos os dias esvaziando o aprendido para que novas ideias possam arejar o meu olhar, a minha percepção e o meu sentimento.

Eu sou um pouco de cada uma das minhas amizades.

No dia de hoje não quero celebrar a minha idade. Quero celebrar os meus afetos porque foram eles que me fizeram chegar até aqui.

Gracias a la vida que me ha dado tanto!

MLUIZA

Recife, 12.07.2021

AKI LEMBRANU: "O QUE ESTÁ FEITO NÃO ESTÁ POR FAZER"

 

MLUIZA

Eu alcancei o tempo em que ter marido era cartão de apresentação. Tinha marido, tinha dono. Por conseguinte, não é aconselhável mexer comigo porque vai ter a quem prestar contas. A quem? Justo ao marido-macho-protetor que pintava e bordava entre outros lençóis que não os oficiais. Enfim, o guardião confesso  do lar era , concomitantemente, o amante atento da perpendicular. Em que pese os momentos de humilhação, perder um marido era desabonador para qualquer mulher que se preze.  E se esse relacionamento nem chegasse ao altar e acabasse no tempo do noivado com o enxoval já prontinho, a coisa ficava mais complicada. Ser rechaçada era mais do que uma decepção, era um ultraje. Pense no frisson causado entre o grupo de amigas onde uma delas, noiva juramentada, foi dispensada sem justa causa.  A noiva/vítima   não conseguia entender o que poderia ter feito para provocar desfecho tão desapontador. Mea culpa, viva a culpa!

- Eu fui como sempre sou, não fiz nada que desse motivo, dizia a ex-noiva ressabiada.

Em busca de razões, o seu lado ‘Eu, pecador’ foi acionado buscando pecado onde não tinha.  Dissecava suas ações e comportamentos  garimpando  culpas em si mesma para justificar a decisão alheia. Não era tanto o abandono o que mais a incomodava.  O que a fazia ainda mais infeliz era todo mundo saber do acontecido. Isso, sim, era o mais desmoralizante de todo o imbróglio.

Amiga é um ser investigador, sem nenhuma técnica porém com muito faro, e uma delas  abriu-lhe os olhos.

- Isso tem cheiro de mulher. Pode procurar.

Cansada de fuçar seu universo interior das culpas, ela foi no conselho da amiga e não deu outra. Descobriu. Chifre. O cara se apaixonou.  Por outra. Simples assim.

- O que ela tem que eu não tenho?, martelava sua cabeça.

Essa busca virou um martírio. O clima piorou. Além da dor, a revolta, o ultraje. Daí para a vingança foi um pulo.  

- Ele vai ver o que eu vou fazer! Ah, se vai...

Silenciosamente, sem considerar o  oráculo das amigas, decidiu sozinha o que ia fazer. Esqueceu que o amor próprio nem sempre é um bom conselheiro.

- Só vou dizer pras meninas depois que eu fizer tudo do jeito que eu tô pensando pra ninguém se meter. 

Dito e feito. Ele estava tão apaixonado pela outra que sequer sentiu-se injuriado.  Ela preferiu acreditar que seu desaforo o deixou perplexo. Sem ação.  

De peito lavado, reuniu a turma da república onde morávamos e despachou sua revanche.

- Sabe o que eu fiz com aquele cachorro? Recolhi as fotos dele,  inclusive as que eu estava junto, peguei uma tesoura, me tirei das fotos e depois com uma agulha de crochê furei os olhos dele em cada uma delas e mandei entrega-las  ao ordinário.

As amigas vibraram. Inclusive sentiram-se vingadas por todos chifres que levaram e que ainda levariam ao longo da vida.  Uma voz dissonante quebrou o coro.

- Fudeu, amiga. Fudeeeeu!  

Ela toda orgulhosa respondeu sem titubear.

- Eu não disse que eu ia me vingar? Eu queria mesmo era ver a cara dele vendo as fotos com os olhos furados.

A amiga dissonante não se segurou:

- Tu não ‘entendeu’ nada. Fudeu pra você, mulher, não pra ele.  Onde já se viu levar um chifre desses e passar o recibo do despeito justamente para o próprio? Onde tu ‘tava’ com a cabeça que fez isso sem combinar com a gente? Podendo fazer uma vingança mais burilada tu ‘vai’ e faz uma merda dessa?

Com a discussão acalorada, teve gente contra e a favor. A ex-noiva, desconcertada, perdeu o protagonismo e passou a figurante da sua própria história. Só não ficou ainda mais chateada porque no tribunal feminino  sempre entra uma discussão paralela e a conversa perde o foco.  

MLUIZA

Recife, 02.06.2022

CALVÁRIOS PÓS-MODERNOS

MLUIZA

Alguém já foi a um escritório da Neoenergia Pernambuco, antiga CELPE, aqui em Recife? Então não vá. Pense na aventura!. Antes de ir liguei para o telefone de atendimento do call center e a moça me informou que na cidade existem três escritórios de atendimento presencial: um em Santo Amaro próximo ao centro da cidade, outro no Pina e mais um em Casa Amarela. E só!   Quem é de Recife entende as distâncias entre elas. Gentilmente a educada jovem aproveitou e me passou uma lista de documentos que eu devia levar. Esqueceu apenas de exigir meu batistério.

Uma vez fui no escritório do Pina e era tanta gente que eu pensei que era uma invasão. Outra vez, há algum tempo atrás, voltei por lá e estava interditado. O segurança me mandou para o centro da cidade porque havia chovido e o escritório estava cheio de goteira. Até finalizar o conserto tinha que me deslocar para as outras unidades. Não fui.  Agora, sem ter como adiar tive que encarar a empreitada porque via internet nada se resolve. Nem pense em agendamento. Isso é pura ficção. Tem que ser presencial. Com direito a fila dupla. Uma para tirar a senha e outra para ser atendido.  Se quiser é assim e se não quiser, também.  Segura na mão de Deus e vai. É agora ou nunca. Criei coragem, respirei fundo. Fui. Escolhi o escritório do centro achando que lá era melhor. Esperava-me uma sala pequena com seis birôs para atender meio mundo de gente.

Era tanta gente no pequeno espaço que até pensei ser um abrigo de refugiados fugidos da guerra da Ucrânia que vieram escapar em Recife.  Escorei-me numa parede perto do banheiro para me preservar um pouco da aglomeração. Esperei, esperei, esperei. Uma gentil funcionária me indicou uma cadeira desocupada e não resisti. Fui lá e me sentei. Abstraí os protocolos de segurança para a covid. Para frequentar este tipo de ambiente você precisa incorporar o negacionismo. Faz parte.  Esquece distância entre as pessoas principalmente entre os que estão de pé. Os funcionários atendendo pacientemente representantes de todos os bairros porque lá tinha gente de todo canto, idade, tamanho, classe social. Pense numa coisa democrática. Mistura todo mundo num mesmo balaio e sacrifica coletivamente. Sem discriminação.

Sentada, fico observando a movimentação. A falta de respeito para com o usuário por parte da empresa é escandalosa. Perversa. Sabe que todo mundo precisa resolver seus problemas e não facilita. Passa o rodo.  Tem que aguentar. Não adianta reclamar com os funcionários porque eles também são sacrificados para atender tanta gente. Tentei me distrair pensando na paciência que precisamos ter para enfrentar descasos.  As pessoas conversam, reclamam, revoltam-se, falam no celular. Muitas máscaras abaixo do nariz. Alguns eventualmente com uma expressão de cansaço baixam-na  mais ainda descobrindo a boca para assoprar. Ufaaaa... Uma moça distraída baixa a sua em etapas. Primeiro, descobre o nariz. Depois a boca. A seguir,  sem o menor constrangimento fica roendo as unhas.

No fim da manhã o rapaz me chama e eu sou atendida. Não precisava levar os documentos que a moça do call center me mandou levar. Bastava a identidade, o comprovante de residência e a conta contrato. Você acha que depois de tudo isso eu resolvi o meu problema? Não!  Apenas foi encaminhado. Após cinco dias úteis eu devo entrar na internet para ver se saiu a conta final. Naturalmente, nem vou perder tempo com esta alternativa. Em ‘resumidas cuentas’, como dizem os hispanos, vou voltar lá depois de 10 dias pra ver se efetivamente saiu. Pago e pronto. Tá pensando que terminou a peregrinação? Naum. Depois de quarenta e sete dias corridos sai finalmente a conta definitiva que deve ir para o meu endereço. Vale registrar que eu não devo um centavo a esta empresa e que o meu caso era apenas e solamente uma troca de titularidade.

MLUIZA

Recife

08.05.2022

EDMILSON QUIRINO DE ALCÂNTARA: A LEMBRANÇA ALEGRE DE QUEM TEM APREÇO PELO TRABALHO QUE REALIZA.

Conversar com Edmilson é sempre muito agradável. Apesar da memória já comprometida ele adora falar sobre sua experiência como dono de bar....